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» Páteos e Vilas de Alcântara

PÁTEOS E VILAS OPERÁRIAS

DE ALCÂNTARA

 

Preâmbulo

 

A preservação da memória colectiva, que se consubstancia e subsiste, de uma forma mais ou menos acentuada (consoante os casos), em determinados conjuntos urbanos cujo valor é significativo, não só ao nível patrimonial, mas também pela relevante dimensão, que tais espaços assumiram na vida de sucessivas gerações, concluiu-se ser imprescindível reconhecer o valor e a especificidade dos elementos edificados que toponímicamente se designam por Pátios e Vilas.

Enquanto estruturas urbanas, os Pátios e Vilas revestem-se do maior interesse e importância para a compreensão da malha Urbana da Cidade de Lisboa, pela sua história, dimensão estética e social sendo de destacar que tais conjuntos apesar de se distinguirem nas suas causas e origens, constituem exemplos notáveis de soluções construtivas e de concepções arquitectónicas, com características únicas, nomeadamente ao nível das artes decorativas aí manifestadas.

Os Pátios e Vilas nas suas diversas tipologias, são testemunhos vivos e documentam manifestações sociais ao nível da fixação das pessoas no espaço urbano, tendo ao longo dos tempos passado por diversas fases e caracterizações, constituindo igualmente um modo especifico de construir Lisboa,  com destaque nomeadamente, para a sua transição entre o Séc. XIX e o Séc. XX, em pleno advento da industrialização, período esse em que os núcleos urbanos se assumiram como espaços contemporâneos de vivências, que nas suas diversas vertentes constituem um valor a preservar;

Ainda hoje, é bastante significativo o número de habitantes que residem nestes conjuntos urbanos e que devido à sua estruturação espacial geram relações de sociabilidade, papeis e interacções estabelecidas numa rede de vizinhança e de solidariedade social definindo um determinado modo de viver a cidade.

O pendor e a vocação eminentemente residencial destas “ilhas”, no meio da cidade, que representam um polo de resistência à terciarização crescente dos centros urbanos, constituem-se como um dos últimos redutos de vivências e sociabilidades de reminiscência rural, que tanto contribuíram para referenciar as memórias, que possuímos da cidade capital.

Normalmente, a população residente dos Pátios e Vilas circunscreve-se às relações de vizinhança no estabelecimento de redes de sociabilidade e no combate ao isolamento urbano, cujo cenário é de forte investimento afectivo, e onde o significativo índice de enraizamento local, encontra, a sua explicação no longo tempo de ocupação dos fogos, nos laços de parentesco originais, e nos que ali se estabeleceram, bem como a similitude das origens sociais, factores estes que conferem um caracter único à vivência humana que se estabelece nos Pátios e Vilas.

A característica actual, quase comum a todos os Pátios e Vilas, é o seu estado de elevada degradação e de ausência de infraestruturas, sendo urgente proceder à reabilitação destes conjuntos urbanos, que devido ao seu valor Histórico e Cultural, à sua importância física e social, e pelo seu interesse arquitectónico e estético, se destacam dos seus congéneres, e como tal urge preservar.

Para alojar os operários das indústrias instaladas em Alcântara, a partir de 1870, começaram a surgir os Pátios e Vilas Operárias.

Alcântara, chegou a ter 47 Pátios  e Vilas Operárias.

Destes Pátios e Vilas, 5 mereceram por parte da CML um tratamento especial e foram objecto dum estudo com vista à sua reabilitação futura: Vila Vital Teixeira na Rua Filinto Elísio, 17; Pátio Fiúza na Travª do Fiúza, 39; Pátio Cabrinha na Rua Fábrica da Pólvora, 143; Pátio das Flamengas na Rua 1º de Maio, 22 e Vila Teixeira na Calçada da Tapada, 144. Todos os Pátios e Vilas, classificados pela Câmara Municipal de Lisboa tiveram intervenções de vulto, excepto a Vila Teixeira, que foi mandada demolir pelo Actual Executivo Camarário em Novembro de 2002.

 

 

 

VILA VITAL TEIXEIRA

Rua Filinto Elisio, nº 17,

Alcântara

 

Construída por Vital dos Santos Teixeira em 1909, é mais um exemplo de vila construída na parte tardoz de edifícios, com fachada para a via pública. No edifício principal habitava uma média burguesia enquanto a parte menos salubre do lote era destinada a habitações para as classes mais baixas. A entrada para a vila realiza-se por uma zona lateral do prédio principal, ficando separada da rua por portão e pelo corredor de acesso. A vila propriamente dita é de uma banda com dois pisos, com escadas e galerias exteriores em ferro.

A altura das fachadas é de sete metros, sendo três metros e quarenta a altura de cada andar, não sendo o sótão aproveitado.

Na planta de Silva Pinto de Novembro de 1909 o quarteirão aparece ainda pouco urbanizado, com a ausência do prédio de entrada para a vila e lógicamente também esta não está presente.

Esta é uma unidade que escapa à organização a que obedece a planificação das unidades habitacionais do Vale de Alcântara, construídos com fins filantrópicos ou altruístas, mas que também visaram a diminuição da mobilidade e a atração  da mão-de-obra. Esta vila, que se edifica em terrenos interiores, não visíveis da via pública, com acesso por portão é concretizada numa zona de urbanização burguesa, em que se insere o prédio de fachada pública que lhe dá acesso.

O quadro da extensão industrial de Lisboa, identifica-se pela apropriação do espaço, e a casa assume-se como um agente essencial dessa apropriação, em que certos segmentos secundários contribuem para a formação de uma tipologia urbana.

A função ordenadora do espaço possui aqui um papel relativamente secundário, desenvolvendo-se isoladamente do espaço público, numa zona preferencialmente intimista, em que as características, quer ao nível estético, quer em relação com o espaço envolvente, estão ausentes nos seus exemplos de ponta. Este é um exemplo do virar para o interior dos módulos limite, sem fechar completamente o espaço.

Com uma arquitectura “normalizada”/corrente, de esquema simples, com r/c e primeiro andar. Ela procura uma solução que pretende evitar as deslocações do operariado da periferia para os núcleos industrias.

Numa malha urbana ortogonal, perfeitamente perceptível, o quarteirão onde se insere a Vila é composto por edifícios do princípio do século, de qualidade corrente em razoável estado de conservação que se intercalam com edifícios desta última década, de cércias superiores e dissonantes da envolvente. A urbanização da zona onde se localiza a Vila detêm características marcadamente burguesas. Os interiores dos quarteirões foram aproveitados para a construção de habitações das classes mais baixas podendo ainda hoje encontrar-se diversas vilas.

A Vila é um edifício de 2 pisos com 6 fogos por piso e com uma galeria metálica de distribuição. O prédio tem 5 pisos ocupados unicamente por habitação.

 

 

VILA VITAL TEIXEIRA

 

  

PÁTIO FIÚZA

Travessa do Fiúza, nº 39

Alcântara

 

Localiza-se num Palácio em Alcântara, que foi ocupado por habitações mais pobres. Este palácio pertenceu em 1663 a Paulo de Carvalho, tio bisavô paterno do Marquês de Pombal desde 1698 aos pais do futuro Conde de Oeiras, passando mais tarde para a posse deste, antes de ser adquirido pelo desembargador José Fiúza Correia à família dos Carvalhos, no início do século XVIII. Foi também conhecido por Pátio dos Galhardos, dos tipógrafos João Maria Galhardo.

Serviu nomeadamente de alojamento a Pedro II, aquando das obras no Paço Real de Alcântara, tendo vindo para aqui já doente em 1706, só daí sai para morrer em 5 de Dezembro de 1706. Possui ainda outros donos até à subdivisão definitiva do seu interior. O último administrador do morgado foi D.Pedro Ferreira Barrucho, passando por herança ao Visconde do Rio Sado que a vendeu a Jacinto Gonçalves, após a morte deste a sua viúva casa com Manuel de Matos (sargento do exército).

O palácio propriamente dito é uma construção do Século XVII com planta em ângulo sensivelmente recto, com frontarias sóbrias onde sobressaem os cunhais de cantaria e as janelas de sacada com varandins de ferro. Elementos estes de uma regularidade de gosto Maneirista. Apresenta ainda uma escadaria de carácter nobre e o chão de mármore em preto, branco e vermelho que formam o padrão de estrelas, as grades das varandas apresentam também algumas características de edifício nobre.

Abel Botelho, ministro de Portugal em Buenos Aires, localiza parte da acção do seu romance “Amanhã”(1), neste espaço, invocando-o do seguinte modo:  “O velho palácio, pátio e quinta do Fiúza já não apresentava mais do que uns ténues vestígios da feição e traça primitiva (...) frente monotamente regrada, em cinco fiadas, por comedidas rectangulares de cantaria lavrada”. Possui um jardim de “talhe hierático (...) moldado em grossos paredões de buxo, maciçamente esquadrados, segundo o classicismo frio e simétrico da arte e do primeiro Império, circunscrevendo cascatas, fontes sem água e náiades sem cabeça. E esta sua gélida imobilidade intimidava (...)”

“Certo é que o Palácio do Fiúza tinha sobejos fóros para arrogar-se a gloria de haver sido por excelência o solar do moderno movimento revolucionário em Portugal. Ali se fundara e instalara e ali funcionou, desde 1858, durante muitos anos de seguida, a Associação Fraternal dos Fabricantes de Tecidos e Artes Correlativas, uma das primeiras cooperativas nacionais, ao depois convertida num centro de agitação dos mais ousados e mais fecundos: Ali celebravam as suas clandestinas sessões várias lojas maçonicas: Ali passaram de preferência a reunir, a contar de 1875, todos os conciliábulos de conspiradores, todos as fenianas ligas de resistência contra os podêres constituídos, presididos e insuflados as mais delas por Carrilhos Videira”. 

Magalhães Lima nos “Episódios da Minha Vida” relata que “Houve em Lisboa três focos de irradiação republicana: o Palácio do Fiúza, em Alcântara; o Pátio do Salema, onde teve a sua sede o “Centro Fraternidade Republicana”, e a “Livraria Internacional”, de Carrilho Videira”. “O Palácio do Fiúza era frequentado por republicanos e socialistas, que, naquela época, caminhavam a par”. (2) Era frequentado por Sousa Brandão, Conceição Fernandes, João Bonança e Gomes Leal. Foi neste Palácio que esteve instalado o jornal “O Trabalho” de feição republicana e socialista, que tinha como colaboradores Silva Pinto, Eduardo Maia e Magalhães Lima.

Na planta de Filipe Folque de 1858 pode-se ver a implantação original do palácio, estando este completamente integrado na malha urbana circundante, na qual se integra de um modo orgânico. Depois da construção dos acessos à ponte esta zona foi completamente esventrada perdendo o edifício a  sua integração urbanística.

No Vale de Alcântara, durante o período inicial da Industrialização de Lisboa, diversos edifícios foram ocupados e subdivididos para habitação das classes operários, figurando entre eles o Palácio e a Quinta do Fiúza, passando a denominar-se por Pátio do Fiúza, o antigo Palácio do século XVII que se encontra actualmente desintegrado da sua envolvente e muito adulterado na sua traça inicial.

Com a abertura da Avª de Ceuta e a posterior construção de um dos acessos à Ponte sobre o Tejo, o Pátio perdeu a sua integração urbanística. Na sua envolvente encontramos actualmente, a Norte, um bairro social construído nos antigos terrenos da Quinta; a Sul, o acessos à Ponte e, a Este, o que resta da malha envolvente – um conjunto de edifícios de dois (2) pisos, ocupados por habitação e comércio.

O Palácio, ocupado principalmente por habitações e armazéns, é um edifício de dois (2) pisos e foi, posteriormente, aproveitado o sótão para habitações.

______________

(1)     BOTELHO, Abel – Amanhã. Lisboa, 2ª edição,1918

(2)     LIMA, MagalhãesEpisódios da Minha Vida. Lisboa, s.d.

 

  

  

PÁTIO FIUZA

 

 

  

VILA CABRINHA

Rua Fábrica da Pólvora, nº 143

Alcântara

 

Foi construída entre 1878 e 1892 para os operários da Companhia Lisbonense de Estampagem e Tinturaria de Alcântara.

Imóvel de interesse histórico e arquitectónico, a Vila Cabrinha, evidencia-se não só pela sua dimensão (dez módulos com três pisos cada) mas também pela beleza austera das suas fachadas.

Elemento fundamental para a compreensão do período inicial da Industrialização em Lisboa, a Vila apresenta-se hoje como um edifício dissonante da sua envolvente imediata e da malha urbana de Alcântara.

A abertura da Avª de Ceuta provocou a ruptura da malha e, ao demolir a estrutura urbana, criou-se uma sucessão de espaços expectantes, áreas desaproveitadas acentuadamente degradadas que acompanham todo o eixo e que desligaram ainda mais a Vila da cidade.

A Vila Cabrinha enquadra-se num contexto muito específico que é aquele que é constituído pelo Vale  de Alcântara e pelas zonas limítrofes que com ele se relacionam, de modo a formar um todo com uma certa coerência ao nível da funcionalidade espacial, reportado a uma dada época cronológica, que é analógica ao início do período de arranque da industrialização em Lisboa. Alguns dos organismos arquitectónicos que aí subsistem são de importância fundamental, pela sua importância e representatividade estética, para a compreensão do período histórico que representam. Entre eles podemos contar:

-         Núcleo industrial e urbano da Fábrica da Pólvora, onde se insere a própria Vila em análise;

-         Edifício de habitação operário (1873-83), Rua 1º de Maio 15-17, destinada aos operários da Fábrica de Fiação e Tecidos Lisbonenses, que se constitui como um dos conjuntos mais significativos;

-         Antiga fábrica “A Napolitana” da Companhia Industrial Portugal e Colónias (1909) na Rua da Cozinha Económica, destinada a moagens e construída  por Veillard e Touzet;

-         Antiga fábrica de Fiação Lisbonense (1846-49), Rua Rodrigues Faria nº 103, fundada em 1838;

A Vila Cabrinha na Rua Fábrica da Pólvora data de finais do Séc.XIX e o nome advem-lhe de uma quinta com o mesmo nome existente no local e pertença da Companhia que a construíu. Este conjunto de edificações operárias foi mandado construir pela Companhia Lisbonense de Estamparia e Tinturaria de Algodões para habitarem os seus operários e famílias, constítuido por dez módulos com três pisos cada, que se estendem ao longo de cento e cinquenta metros, enquadrados por pilastras de alvenaria e com cor dominante de ocre.

O desenvolvimento industrial de Lisboa  tem o seu grande impulso na segunda metade do séc.XIX, com grande concentração no Vale de Alcântara, onde modifica a sua topografia urbana. Às construções planificadas e improvisadas (os Pátios), a maioria resultando de ocupações ocasionais de espaços incaracterísticos, vão suceder-se Vilas com modelos inovadores de ocupação do espaço.

Em relação à Vila em causa sobressai o ritmo monótono, mas de extrema beleza, da abertura de janelas, reatando de certo modo tradições pombalinas. Inicialmente existiam só os dois primeiros núcleos com o conjunto que lhe fica paralelo, ligados por corpo estreito e cujo acesso se faz por túnel, por debaixo de um dos prédios.

Os dois primeiros núcleos estão separados 6 metros na extensão aproximada de 50 metros, passando depois a ter mais dois núcleos, o que seria inadmissível se não fosse uma rua particular que servisse exclusivamente os inquilinos – operários da fábrica, isolada por muro de vedação da propriedade sobre a Rua da Fábrica da Pólvora. É voltado para este muro que se ergueu toda a correnteza de casas com as traseiras para o cemitério dos Prazeres. Originalmente o acesso não se podia fazer facilmente por nenhum dos extremos. O abastecimento de água fazia-se por torneira única localizada na parede que fechava o topo esquerdo.

A fábrica que foi responsável pela sua construção estava ligada aos Armazéns do Chiado e tinha instalações e escritório na Rua da Fábrica da Pólvora nº 62, adjacentes à Vila, estendendo-se pela margem direita da Ribeira de Alcântara numa extensão  de cerca de 1500 metros e com uma área de 9 há 733430 (segundo o que constava num quadro no escritório da Companhia). Para quebrar o véu de tristeza da encosta fronteira onde se encontra o escritório aproveitaram-se cerca de 2000 oliveiras já existentes na quinta. Para além deste local a Companhia dispunha de casas para alugar em mais quatro locais, mas este era o mais importante e o primeiro a ser construído. Segundo o Boletim do Trabalho Industrial de 1912 (1)  a Vila foi construída há mais de 40 anos na vizinhança de outras fábricas, o que coloca o início da sua construção em 1872.

Por sua vez Guilherme Augusto de Santa Rita (2) afirma que por proposta de 15.03.1885 a Assembleia Geral da Companhia Lisbonense de Estamparia e Tinturaria de Algodão foi autorizada a construir esta Vila. José Caeiro da Mata  (3) classificava-a em segundo lugar na atribuição cronológica que faz da implantação do sistema das Vilas em Portugal, atribuindo-a à data de 1885, logo  a seguir à Companhia Lisbonense de Fiação e Tecidos, de 1873. O edifício sofreu um incêndio no inicio do século, em 1912. Actualmente, o edifício tem do lado da ribeira o número total de 10 prédios, “ sendo para 6 moradores cada um e do outro lado da rua particular à 2 para 12 cada um, o que permitia (...) moradia a 84 inquilinos” (4) num total de 12 prédios onde podem habitar mais de 200 pessoas .

Na correnteza mais pequena existem habitações para 25 moradores e na outra para 60. Em relação aos lugares não se faz diferenças de piso, dependendo essencialmente do número de compartimentos, indo de 2$250 réis (com três compartimentos) até aos 4$000 réis (em 1912). Existem quatro lojas com pequenos quintais, do lado da encosta. No preço do aluguer está incluído o custo da água e da  limpeza da rua particular. Este conjunto de casas que não tem ligação física com a fábrica e que está independente dela destina-se a operários preferencialmente da companhia mas aloja também os de outras companhias e serve “até para pessoas estranhas à classe”. (5)

Caminhando de Alcântara para as Águas Livres existe uma rua particular por dentro da Quinta que vai dar a um velho palácio que foi dividido e  alugado, e é este o segundo núcleo de habitações, existindo ainda mais dois, que servem directamente a fábrica. No conjunto a fábrica possuía 11 moradias o que era de avultada importância.

Olímpio Soares em 1907 (6) classifica-a entre as iniciativas dos patrões das mais importantes e atribui-a a 1855 considerando-a “um bairro para os seus operários e para estranhos”, este autor erra no entanto quanto á sua datação.

Dentro da classificação feita por Teotónio Pereira a Vila pode ser indiferentemente incluída na Vila em correnteza, Vilas formando rua ou nas Vilas directamente ligadas à produção, o que denota a dificuldade na atribuição de tipologias estanques a determinados conjuntos.

No conjunto global das Vilas Operárias esta assume uma importância extrema, quer pela sua grandiosidade, quer pela homogeneidade, apesar das fases diferentes em que foi construída, sendo a sua primeira fase de 1878 e a segunda fase de 1883/90, o seu último corpo é terminado em 1892, tornando-a fundamental, pioneira e inovadora. Procura resolver os problemas causados pelo afluxo de uma população que chegava cada vez em maior número à capital para trabalhar na crescente actividade industrial.

Reflexo de uma certa actividade paternalista mas que simultâneamente não dispensa o controle e a pressão sobre os assalariados diminuindo a mobilidade e atraindo a mão-de-obra, ela representa à escala urbana a representação da mitologia filantrópica da empresa como quadro quase exclusivo de vida, numa perspectiva de harmonia social. Localiza-se em zona de forte implantação industrial e simultâneamente de grande interesse estratégico, perto do rio e do caminho-de-ferro.

Embora sem grandes preocupações formais, não existem cuidados de desenho ou de ornamentos, o programa de construção simples e de custo reduzido torna extremamente fácil a sua ampliação. Ela representa o modelo das primeiras Vilas, nas quais Alcântara possui os primeiros exemplos, cujo surgimento é facilitado por soluções de habitação para operários que já vinham de experiências anteriores. É também a materialização da importância que assumiu o sector têxtil num primeiro momento da industrialização e da necessidade de solucionar os problemas de alojamento.

Enquadra-se numa categoria em que a rua consiste num espaço semi-privado, mas já urbanizado e com fachada para a via pública, o espaço é construído como modelo e carga volumétrica, com uma certa preferencia intimista e á medida da escala humana. O seu exemplo não é seguido em torno, por um lado por estar isolada e por outro porque a possibilidade de ser um modelo vai contra a Câmara Municipal a programação da zona habitacional para o local. Ela opera a mediação entre um espaço público e outro privado numa inserção espacial urbana que não atinge ainda a solução urbana completa do Bairro operário da Calçada dos Barbadinhos ou da Vila Cândida.

­­­­­­­­­_____________________

(1) SIMÕES, J.Oliveira.- Habitações Fabris para operários na 3ª Circunscrição Industrial.

Boletim do Trabalho Industrial.1912(66)

(2) SANTA RITA, Guilherme Augusto – Habitações de operários e classes menos abastadas.

Lisboa: s.n., 1891

(3) MATA, José Caeiro da.- Habitações Populares: ESTUDO ECONÓMICO E FINANCEIRO. Coimbra: s.n., 1909.

(4) SIMÕES, J.Oliveira. cp.cit.

(5) Idem.Ibidem

(6) PIRES, Olimpio – Subsidios para a resolução do problema das habitações económicas para operários ruraes em Portugal. Lisboa: Instituto de Agronomia e Veterinária/Instituto Geral das Artes Gráphicas, 1907.

 

 

PÁTIO CABRINHA

 

  

PÁTIO DAS FLAMENGAS

Rua 1º de Maio, nº 22

Alcântara

 

Também conhecido por Convento de nossa Senhora da Quietação, das religiosas descalças da regra de Stª Clara ou das Flamengas, a sua edificação data de 1582/86 com traço do arquitecto Nicolau Frias, responsável pela Capela – Mor do Mosteiro dos Jerónimos, cujo filho se encontra sepultado na nave da igreja. Fica praticamente fronteiro ao local onde se encontra edificado o Convento das Franciscanas do Calvário.

Foi fundado pelo monarca Filipe I , aquando da anexação espanhola, e destinava-se a religiosas fugidas das perseguições dos luteranos. Em 1586 passam para aqui as monjas vindas de S.Roque. Existe um livro do ano de 1627 com o título “Relaciones de como se há fundado en Alcantara de portugal junto a Lisboa(...)”, redigido pela madre Catarina do espírito Santo, que relata a fuga da província da Baixa Alemanha (Holanda) no século XVI, de onde tinham sido expulsas pela revolta reformista da cidade de Alckmaria. A primeira morada das Clarissas foi no convento de Nossa Senhora da Glória (1582). Finalmente em 1586 fundava-se com 21 monjas flamengas, duas noviças da mesma nacionalidade e uma portuguesa, o edifício actual.

Encontra-se em articulação com o edifício de habitação para operários, construído de 1873 a 1883, pertença da Fábrica de Fiação e Tecidos Lisbonenses.

Aqui foram enterradas as vísceras e o coração de D. Pedro II quando este faleceu no Palácio Real da Quinta de Alcântara, que lhe ficava anexo.

De arrabalde pouco povoado até 1640 o local vai-se povoando sob a influência das cada vez mais constantes permanências da família real no Paço do Calvário para onde se vinha caçar.

Na igreja casaram, em 1666, el-rei D. Afonso V e D. Maria Francisca de Sabóia, ficando aí instalados os Capuchinhos franceses que vinham com a rainha, com o oficio a ser presidido pelo bispo de Targa e foram consagrados pelo crisma os infantes, filhos de D.Pedro II.

O convento resiste ao camartelo reformista das medidas anti-clericais do liberalismo, às invasões francesas e à queda da monarquia, mas este exemplo, que constitui um dos principais polos difusores da urbanização na zona de Alcântara, foi alterado a quando da ocupação para habitação civil, com as excepções da Igreja e do Claustro.

Constituindo-se este último como um excelente elemento arquitectónico Maneirista com excelente exemplo azulejares.

O Claustro distribui-se em dois pisos, sendo de maior altura o primeiro piso, apresentando colunas que assentam em plintos, que são unidos por muretes, onde se apresentam panos de azulejos azuis e brancos (na face exterior e interior no primeiro piso e só na face interior no segundo piso) de decoração floral com faixa envolvente.

No centro do claustro encontra-se edificado um jardim, com fonte central, de carácter geometrizante de certo gosto maneirista, a que se tem acesso por aberturas em cada uma das quatro faces do recinto.

Com as cortes constituintes começa a decadência, proibindo-se as admissões de noviços e reduzindo-se ao mínimo os mosteiros existentes, acabando Joaquim António de Aguiar por extinguir as ordens religiosas em 1834 incorporando-as na Fazenda Pública. Posterior a esta data sofrem novas medidas retaliadoras sendo  paulatinamente adaptadas  a determinados serviços públicos.

Na antiga sacristia , por detrás do altar mor, há ainda hoje dois admiráveis arcazes de pau preto e oito telas de algum valor, nomeadamente um atribuído a Pedro  Alexandrino, e tectos com estuque de relevo feito por João Grossi.

Segundo Mário Gonzaga Pereira, em 1833, “a sua planta pode acomodar 600 fieis aos ofícios da Igreja Romana, e o seo alçada he conforme a copia junta”. (1)

O edifício possui três capelas, sendo uma dedicada a Nossa Senhora da Quietação, única desta invocação em Portugal.

“Este Templo possue huma devota Irmandade dedicada a Nossa Senhora, a qual tem quadjuvado o devido culto, cuja ainda se conserva”.(2)

“(...) as officinas do Convento, afirmão-nos ter muitos boas acomodações, como bem he de esperar do seo Catholico fundador.”(3)

Depois de 1834 “(...) continuou esta ordem satisfazendo as funções do seu ministerio(...)” (4)

 

_______________

(1) PEREIRA, Luis Gonzaga – Monumentos Sacros de Lisboa...

(2) Idem, ibidem.

(3) Idem, ibidem.

(4) Idem, ibidem.

 

 

 

 

PÁTIO DAS FLAMENGAS

 

VILA TEIXEIRA

(Já demolida)

Calçada da Tapada, nº144

Alcântara

 

A Quinta da Bela Vista foi criada em 1990, pelo Sr. Francisco Teixeira,  junto à actual Tapada da Ajuda, no local hoje ocupado pela Vila Teixeira. Os três pisos são corridos, ao longo de todo o edifício, por varandas que acompanham as diferentes alturas do imóvel. Apresentando ainda pormenores decorativos que são proporcionados pelo modo de articular a estrutura do telhado.

Em 1912 existia nesta propriedade, um edifício que servia de habitação para os trabalhadores da quinta. No ano de 1921 este edifício foi demolido e foram construídos no local alguns armazéns e anexos. Em 1925 é constituído o actual prédio, denominado Vila Teixeira e destinado a albergar os trabalhadores da referida Quinta da Bela Vista. Este imóvel representa uma tipologia que o torna de extrema originalidade. Talvez por ter sido construída por um engenheiro (José António dos Santos Teixeira), a sua estrutura interna apresenta-se como exemplar ao nível da distribuição do espaço.

Quando em 1925 – José António Pedroso, construtor civil, edifica 36 fogos destinados a famílias modestas, em local do prédio que foi demolido por ameaçar ruína, o que quer construir fica em parte na faixa de expropriação de uma avenida projectada entre o Alto da Ajuda e o cruzamento da Rua Avelar Brotero com a Calçada da Tapada. O projecto é autorizado desde que aceite o encargo de não exigir indemnização à C.M.L. quando esta tiver que mandar demolir a propriedade em todo ou parte para a avenida e venda de terrenos marginais. Pode, no entanto, construir livre de encargo desde que altere a configuração, “deixando de o construir com 2 corpos formando ângulo para lhe dar um só corpo com a forma rectangular, e deslocando-se para a direita até encostal-o (sic) ao muro da Tapada da Ajuda” (como está indicado a traço azul na planta topográfica do projecto). (1) A construção ficará interior, e no entanto, é fácil dar-lhe comunicação construindo o requerente um pequeno troço de rua como a planta topográfica indica.

Estas alternativas, segundo a Câmara Municipal de Lisboa, são facultadas, “entendendo que devemos facilitar a construção de casas económicas como a que o requerente pretende fazer”(2)

Durante a década de 40 foram sendo construídos sucessivos armazéns nas trazeiras (norte) do edifício. Em 1951 são demolidos todos os “anexos” implantados a norte da Vila Teixeira e em 1952 a herdeira desta propriedade, nora do seu fundador, pretende demolir também a vila. Em 1958 o Sr.António Martins, pai da actual proprietária, apresenta um primeiro projecto de urbanização para este terreno, prevendo a demolição de tudo o então existente. Este projecto bem como todos os seus semelhantes, apresentados durante a década de 60, não foi aprovado pelos serviços da C.M.L.. Em 1973 foi apresentado novo projecto, prevendo ainda a demolição da vila, que foi aprovado mas posteriormente arquivado.

Durante todas estas décadas a Vila não sofreu quaisquer obras de conservação tendo-se por isso degradado consideravelmente. Esta degradação acentua-se grandemente depois de ter sido ocupada, no pós 25 de Abril, por várias famílias, que actualmente lá habitam em péssimas condições.

A função ordenadora do espaço exterior possui aqui um papel relativamente secundário, desenvolvendo-se isoladamente em relação à envolvente.

_______________

(1)Arquivo do Alto da Eira. Processo de obra nº2137

(2) Idem, ibidem

  

VILA TEIXEIRA

 

 

  

NOTAS FINAIS

 

Além destes 5 Pátios e Vilas Operárias anteriormente tratadas em detalhe, existem ainda dezenas de outras na Freguesia, encontrando-se a maior parte delas em adiantado estado de ruína com excepção da Vila Barata na Rua Gil Vicente nº 7 que foi totalmente recuperada.

Sem ser exaustivo, em Alcântara existem ainda os seguintes Pátios:

 

Pátio Cardoso  na Rua Aliança Operária, nº 4;

Pátio Torres na Rua Aliança Operária nº 25;

Vila Rodrigues na Rua Frei Bartolomeu dos Mártires;

Pátio da Travessa dos Moinhos, nº 30;

Vila Adélia na Rua D.João de Castro, nº 62;

Vila Adelaide na Rua Gil Vicente, nº 17;

Vila Barata ou Pátio do Roque na Rua Gil Vicente nº 7;

Pátio da Rua dos Lusíadas, nº120;

Pátio dos Bicos, na Rua Pedro Calmon, nº12;

Pátio da Rua Amadeu Sousa Cardoso, nº 17;

Pátio da Calçada de Santo Amaro, nº19;

Pátio da Calçada de Santo Amaro, nº 24;

Pátio da Rua Feliciano de Sousa, nº132;

Pátio da Rua Feliciano de Sousa, nº 110;

Pátio da Avª de Ceuta nº 149/151.

 
[Retroceder] [Reprodução Audio] Data de
 


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